Matosinhos celebra a abertura da época de pesca da sardinha

Sete horas da manhã, dona Emília e dona Paula da Praia, compradoras da conserveira Pinhais, empresa centenária de Matosinhos, encontram-se já na lota, a aguardar o início do primeiro leilão do dia, daquela que é a espécie mais querida dos portugueses: a sardinha. Em todos os cantos da cidade de Matosinhos, partilha-se a mesma excitação e alvoroço, com a reabertura da época de pesca oficial da sardinha. Até 31 de julho, os pescadores de 120 barcos da frota do cerco vão poder capturar 10 mil toneladas, mais 3.700 que as inicialmente fixadas no ano passado.

“Na Pinhais, ansiamos por este dia, pela oportunidade de trabalhar com produto de qualidade, do mais fresco que há. Aguardamos um ano pela primeira sardinha portuguesa”, revela dona Paula da Praia.

A conserveira Pinhais inicia o dia bem cedo na lota de Matosinhos, onde participa nos leilões dos cabazes, com 22,5 Kg de sardinha cada. Segundo as colaboradoras da Pinhais, basta um olhar para uma sardinha para verificar a qualidade do cabaz: Se ainda houver um brilho nos olhos e uma manchinha amarela no lombo, sabemos que é uma sardinha fresca, com gordura e é boa para se trabalhar”.

A arte desta seleção vem de há 100 anos, em que se atirava uma sardinha para uma tábua de madeira e, se ela não saltasse, era porque não era ideal para as conservas Pinhais, pois já tinha sido pescada há muito tempo.

Os barcos, que saem ainda nas primeiras horas da madrugada, vão chegando ao porto, carregados de peixe fresco. Assim que atracam, os pescadores colocam o peixe em xalavares e vão retirando, à mão, aqueles espécimes que já se encontram danificados e não estão dignos de serem colocados nos cabazes. Este processo desenrola-se sob o olhar atento de um crescente número de gaivotas, que aguardam apenas uma oportunidade de provar a mais fresca sardinha do dia.

Para a conserveira Pinhais, a reabertura da época de pesca da sardinha é sinónimo de celebração. Mas também é a altura em que se inicia o período mais antecipado, de grande frenesim, entusiasmo e felicidade.

Para João Paulo Teófilo, diretor da Pinhais, o arranque da campanha mais cedo “é uma excelente notícia para toda a fileira ligada à pesca. A política precaucionaria adotada pelos governos ibéricos demonstrou claramente que é possível a proteção do recurso sem comprometer a viabilidade do setor.”

Na freguesia de Matosinhos, a conserveira Pinhais assume uma ligação muito forte à comunidade piscatória local.

“A Pinhais está fortemente convicta do seu papel na compra do cabaz da sardinha ao preço justo ao pescador. É um comentário habitual na lota de Matosinhos que, quando a Pinhais se vai embora, o preço do cabaz da sardinha baixa. É fundamental não deixar o preço do cabaz ir a preços que não permitam a saída dos barcos e nós estamos bem cientes disso”, explica João Paulo Teófilo.

O PROCESSO

No total, são mais de 40 os passos seguidos na produção das conservas Pinhais e são eles que garantem a qualidade reconhecida aos produtos da marca. Estados Unidos, Áustria e Itália são os mercados em que a conserveira está mais fortemente presente.

Após a compra, a sardinha é cortada, sendo-lhe retirada toda a tripa para evitar o amargor no processo de conservação. Seguem-se a lavagem das sardinhas nas grelhas para eliminar quaisquer impurezas que adulterem o processo de maturação e o corte dos ingredientes frescos, como a cenoura ou a malagueta. Resistindo à tentação de produzir mais e mais rapidamente, a Pinhais mantém a pré-cozedura nos fornos a vapor, a que se segue o arrefecimento, o enlatamento e a esterilização. Depois segue-se a maturação das conservas, durante o restante ano.

Para a conserveira Pinhais, agora é tempo de celebrar a sardinha de Matosinhos e com ela, a azáfama e entusiamo tão caraterísticos da época nobre de produção artesanal.

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